quarta-feira, 17 de junho de 2026

Ministro do STF, André Mendonça; expõe máfia do gângster, Daniel Vorcaro

No julgamento que manteve a prisão preventiva dos empresários Henrique e Felipe Vorcaro, nesta terça-feira (16/06), o ministro do STF, André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master, no Supremo Tribunal Federal (STF); conseguiu reverter um movimento empreendido desde o fim de maio para frear o avanço da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras bilionárias no sistema financeiro protagonizadas pelo ex-banqueiro, Daniel Vorcaro; e corrupção de agentes públicos. Quanto mais se investiga as ações e movimentos de Vorcaro, se consolida o entendimento de ser o ex-banqueiro um dos gangsteres mais poderosos do país.

Na sessão, Mendonça rebateu e desmentiu diretamente, ponto a ponto, uma série de críticas e ilações contra a operação lançadas pelo também ministro do STF, Gilmar Mendes; que misteriosamente parece ter interesse na soltura do gângster e da sua quadrilha. O ministro, André Mendonça; negou que tenha prendido o banqueiro para forçar uma delação premiada, apontou tentativas externas de criar vícios para anular a investigação; e disse que não admitiria acusações indevidas para desacreditar sua atuação e o trabalho dos investigadores.

No início do mês passado, em duas fases distintas da operação, André Mendonça decretou a prisão de Henrique, pai de Daniel, e de Felipe, primo do gângster. O entendimento é de que Henrique e Daniel sejam pilares da organização criminosa.

Henrique foi preso pela suspeita de manter em atividade um grupo de capangas conhecido como “A Turma”, que, segundo a Polícia Federal (PF), ameaçava desafetos que contrariassem os interesses do seu filho, o gângster, Daniel Vorcaro (seus interesses e seus negócios). Também mantinha pagamentos a um segundo grupo, composto de hackers que obtinham dados pessoais de adversários. Essas e outras revelações tornam possível classificar Daniel Vorcaro como “gângster” e não essa nomenclatura bonitinha de ex-banqueiro usada pela mídia frouxa que tenta me fazer acreditar que é imparcial (nunca foi!).

Felipe, por sua vez, foi preso depois que a PF descobriu que, em janeiro, ele deixou às pressas uma casa em Trancoso (BA), minutos antes de agentes chegarem ao local para uma busca e apreensão. Ele escapou num carrinho de golfe, levando celulares e computadores, deixando para trás outros objetos pessoais. Segundo a PF, ele integrava o núcleo financeiro do gângster, e as investigações desvendaram que ele foi responsável por depósitos de R$ 300 a R$ 500 mil para o senador, Ciro Nogueira (PP-PI); um dos muitos políticos na algibeira do gângster.

No final de maio, as prisões foram submetidas à Segunda Turma do STF para julgamento. Luiz Fux acompanhou Mendonça pela manutenção das medidas. Gilmar Mendes pediu vista e, desde então, preparava seu voto, proferido nesta terça para soltar Henrique e Felipe, nitidamente operadores do gângster. Se obtivesse a adesão de Nunes Marques, haveria empate e ambos seriam soltos – o que, para Mendonça, atrapalharia a investigação.

Nos bastidores, havia pressão sobre Nunes Marques para acompanhar Gilmar. Num breve voto, após deixar o plenário de julgamento por alguns minutos, o ministro optou por seguir Mendonça, reiterando que fatos novos deverão ser avaliados pelo colega se considerar que as medidas merecem ser mantidas ou revertidas.

Com isso, Gilmar Mendes ficou isolado e vencido na turma. O quinto integrante do colegiado, o ministro, Dias Toffoli; não participou do julgamento. Em fevereiro, pressionado pela revelação da relação que tinha com o gângster, inclusive em negócios familiares, ele se afastou da relatoria e depois se declarou suspeito para julgar o caso. A proximidade de Dias Toffoli com o gângster é mais do que suspeita. Em qualquer país sério ele também estaria sendo investigado.

Mendonça rebate Gilmar e aponta ameaças da quadrilha a testemunhas
André Mendonça, em primeiro plano, e Gilmar Mendes, ao fundo, durante sessão da 2ª Turma do STF.
Após o voto de Gilmar Mendes, André Mendonça pediu para complementar seu voto e enfrentou, ponto a ponto, as críticas do colega. Começou dizendo que não era a Lava Jato que estava em julgamento, mas sim “a maior fraude financeira da história do país e certamente uma das maiores do mundo”.

Acrescentou que não seria “apenas um crime de colarinho branco”, com “atores no gabinete, na Faria Lima, nos palácios, que praticaram fraudes, crimes de corrupção, de lavagem de dinheiro, de prejuízos ao sistema financeiro nacional, de dilapidação de um fundo garantidor de poupanças”. “Não. Aqui há contornos de máfia, de crime organizado mafioso. De fuzis, de metralhadoras, de armas raspadas. De infiltração no sistema policial”, afirmou o ministro, detalhando depois ameaças a testemunhas.

No voto, ele detalhou que, até o dia anterior de sua prisão, em maio, Henrique Vorcaro manteve contatos com Marilson Roseno sobre pagamentos que, para o ministro, eram muito superiores a um serviço de vigilância de terreno – citou depósitos de 200, 400 e 800 mil reais, muito acima dos R$ 13 mil mensais registrados em contrato.

Citou ainda contatos com Manoel Rodrigues, apontado pelas investigações como um operador do jogo do bicho, no Rio de Janeiro, que teria colaborado com a milícia de Vorcaro e ameaçando testemunhas – no caso, ex-funcionários que poderiam revelar fatos comprometedores sobre o gângster.

Com outro investigado, identificado como Anderson Wander, um policial da ativa que prestaria serviços ao grupo, segundo o ministro, foram encontrados armamentos pesados e munições de grosso calibre. O objetivo também seria ameaçar testemunhas.

Mendonça ainda citou detalhes da atuação de Henrique para “comprar o silêncio” da família de Felipe Mourão, conhecido como Sicário. Preso em maio, ele se suicidou na carceragem da PF em Belo Horizonte. Arquivos na nuvem, encontrados por sua irmã, poderiam, segundo ela, “acabar com família Vorcaro”.

Em boa parte de sua fala, feita de improviso, Mendonça rebateu as críticas de Gilmar. Relatou que transferiu Vorcaro para a penitenciária de segurança máxima de Brasília com anuência da defesa, após a morte de Felipe Mourão. "Havia risco à vida de Daniel Vorcaro. Às vezes é uma comida envenenada, uma água, e se apaga uma pessoa ou um arquivo. Tomei a decisão única e exclusivamente para preservá-lo”, disse.

Mendonça disse que ele mesmo poderia ser alvo de ataques violentos. “Talvez seja muito simples parar essa investigação. Basta alguns desses integrantes atentar contra a vida do relator. Para parar do jeito que está, o polo mais frágil sou eu. Mas como eu disse, é preciso ter coragem”, afirmou, acrescentando depois não ter medo de morrer.

Fontes: Metrópoles e Gazeta do Povo

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