quarta-feira, 5 de junho de 2013

Projeto de Lei prevê descontos para empresa que empregar ex-usuários de drogas e menores infratores

Flávio Azevedo

O vereador Marcos Fonseca
O vereador Marcos da Fonseca, o Marquinho da Luanda Car (PMDB), apresentou durante sessão itinerante do poder Legislativo, no último dia 28 de maio, no Basílio, um Projeto de Lei (PL) que prevê descontos nos impostos municipais para as empresas que empregarem dependentes químicos em recuperação e menores infratores.
– As drogas constituem um desagregador de famílias e um caso de Saúde Pública. No país há uma proliferação de tipos de entorpecentes e um crescimento assustador de usuários. Um dos elementos causados pela dependência química é a baixa estima do ser humano, geralmente causada por decepções de toda ordem – considerou o parlamentar, para quem as pessoas precisam ser ressocializadas. Ele acrescenta que “o município precisa estar atento a essas questões”.

Na ocasião, o parlamentar também indicou a implantação de uma casa de recuperação de dependentes químicos que atenda mulheres. Segundo o parlamentar, o número de usuários de drogas cresce assustadoramente, mas boa parte das instituições que atende esse público é destinada aos “usuários” e não as “usuárias”.
– O volume de dependentes químicos tem crescido bastante, o número de “usuárias” de drogas é tão grande quando ao de “usuários”, mas a oferta de leitos para o público feminino é diminuto – analisou o vereador, acrescentando que essa seria a primeira casa do Estado do Rio de Janeiro com essa especificação.

O parlamentar disse ainda que o município deve dar atenção especial a esse tema porque as drogas estão dizimando os jovens e dilacerando famílias. Ele frisou que “esse um problema social sério e não podemos deixar passar essa oportunidade”. Ainda segundo Marquinhos da Luanda Car, “não custará nada ao município dar os descontos propostos, porque temos um Condomínio Industrial em crescimento, muitos chefes de família estão precisando trabalhar e precisamos contribuir para que essas pessoas recuperem a sua alta estima", concluiu.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Lona na Lua escreve o nome de Rio Bonito no Festo 2013

Flávio Azevedo

Cinco prêmios e cinco indicações a prêmios foi a conquista de "Faroeste Caboclo".
Mais uma vez a galera do Lona na Lua escreve o nome de Rio Bonito nas Minas Gerais. Dessa vez, no Festival Nacional de Teatro de Teófilo Otoni, edição 2013, onde eles apresentaram com o espetáculo “Faroeste Caboclo”. Eles arrebataram os prêmios de “Melhor Espetáculo de Rua”, “Melhor Ator Coadjuvante” (Zeca Novais), “Melhor Direção” (Zeca Novais), “Melhor Trilha Sonora” (Sandhro na Lua) e “Melhor Cenário”.


Além dos prêmios, a trupe também acumulou seis indicações: “Melhor Atriz” (Larissa Moraes), “Melhor Ator” (Wilker Beckery), "Melhor Atriz Coadjuvante" (Taiane D'Ornellas), “Melhor Ator Coadjuvante” (Bruno Siqueira), “Melhor Texto”, e “Melhor Espetáculo do Festival”. É isso aí galera! Continuem brilhando e alavancando o nome de Rio Bonito! Parabéns!

Diretório Municipal do PT promove palestra sobre “religião e política”

Flávio Azevedo

“Fé e Política se misturam?”, é a palestra que o Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) vai realizar no próximo dia 5 de julho, a partir das 18h30min, na Câmara Municipal de Vereadores de Rio Bonito. De acordo com o presidente do PT, Jorge Wallace Brettas, confirmou presença o deputado estadual Robson Leite (PT-RJ).

A palestra, segundo convite do diretório petista, “pretende debater a política de forma mais ampla em nosso município, despertando o cidadão para a importância da participação coletiva e a valorização do voto de opinião no combate aos interesses
individualistas que assolam nossa sociedade”.

Se você acredita que a promoção do bem comum, através da Política
pautada na ética e na transparência, é um dos caminhos para um mundo
com mais Justiça e Paz, venha compartilhar conosco deste momento, convidam os petistas riobonitenses.

Informações: Wallace Bretas (8195-3199) e Marcelo Massao (7929-2019).

Uma entrevista sobre o assunto com o deputado Robson Leite, sobre o livro “Fé e política se misturam? Uma reflexão necessária” pode ser acessada no link a seguir: http://www.breno.com.br/clientes/robsonleite/2010/05/fe-e-politica-se-misturam-uma-reflexao-necessaria/

Prefeitura de Rio Bonito reinaugura Pinacoteca Municipal

Secom/RB

Pacientes do HCRB, cuidadores e parte do staff da Prefeitura de Rio Bonito.
A Pinacoteca Antônio Benevides está novamente aberta ao público, após uma pequena reforma. Um evento realizado na quarta-feira, 29/05, pela Prefeitura de Rio Bonito, através da Secretária de Cultura, marcou a reabertura do importante espaço cultural municipal que irá abrigar até o dia 28 de Junho a exposição “Arte de Incluir”, com obras de pacientes do Hospital Colônia.

A exposição conta com 47 telas, incluindo as três obras finalistas da quinta edição do Concurso Nacional de Pintura e Poesia Arte de Viver realizado no ano passado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida e pelo Ministério da Cultura. As três pinturas, que ficaram entre as cem melhores, estão no livro “Arte de Viver”. O prêmio tem como objetivo utilizar a arte para promover a reinserção do portador de esquizofrenia à sociedade. 
“Foram mil e cem trabalhos de todo o Brasil, só de portadores de transtorno mental. Nós mandamos dez, sendo que três foram classificados para publicação. Só cem entraram. Então, a gente achou a glória. Foi uma experiência super exitosa e estou muito feliz por ver as pinturas sendo expostas aqui”, disse emocionado o idealizador do projeto, o médico psiquiatra Dr. Jacinto dos Santos.

Durante a cerimônia, que contou com a presença de artistas riobonitenses, secretários, profissionais e pacientes do Hospital Colônia, a Prefeita Solange de Almeida parabenizou a equipe de saúde mental do município e lembrou do Dia Nacional da Luta Antimanicomial, comemorado no mês de maio. “Aproveitando que hoje estamos comemorando também o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, eu quero parabenizar e agradecer aos profissionais que lidam com a saúde mental. Vocês são pessoas abençoadas. O amor de vocês pelo trabalho tem de ser copiado por todas as pessoas desse planeta. Aqui a gente está vendo que coisa linda é a arte, quantas coisas lindas os pacientes têm para dizer, para nos mostrar. Todos estão de parabéns”, disse a chefe do executivo. 

A exposição poderá ser conferida de segunda a sexta-feira das 9 às 17h. A Pinacoteca está localizada na Avenida Castelo Branco, 61, em cima do Banco Itaú, no centro da cidade.

Rio Bonito realiza a Conferência Municipal das Cidades

Secom/RB.

Representantes do Poder Público, Movimentos Populares, entidades profissionais acadêmicas e de pesquisas, Organizações não Governamentais (Ongs), empresários e trabalhadores em geral estão sendo convocadas para participarem da 1ª Conferência Municipal da Cidade, que acontece no próximo dia 6 de junho, às 13 horas, no Espaço Ceccarelli (Rua Júlia Cortines, n° 64, no Centro). O evento, que tem o lema: Quem muda a cidade somos nós: Reforma Urbana já!, está sendo organizado pela secretaria de Segurança, Desenvolvimento Urbano e Habitação.

A Conferência Municipal das Cidades é um espaço de interação entre representantes do poder público local e da sociedade organizada para debater questões fundamentais do desenvolvimento da cidade, nos setores de Habitação, Saneamento, Mobilidade Urbana e Planejamento Urbano para os próximos três anos. O objetivo da conferência é ampliar o debate acerca dos desafios de transformar os Municípios em espaços mais justos e assegurar o direito à cidade.

Itaboraí inaugura “Casa do Artista” homenageando músico riobonitense Bira Rasta

O músico, pesquisador e artesão, Dawson Nascimento (no microfone) é irmão do músico B ira Rasta.
Mais de 100 convidados presenciaram a inauguração da Casa do Artista, espaço aberto pela Prefeitura de Itaboraí, que terá o objetivo de formar e revelar artistas da cidade. Já no próximo mês, o local irá oferecer, gratuitamente, cursos de música (canto e flauta), teatro e dança. “Nossa missão é valorizar o artista local. Itaboraí tem grandes talentos que, em algumas ocasiões, infelizmente, se perdem por falta de oportunidades. Queremos evitar isto”, disse Cláudio Rogério, presidente da Fundação Cultural.

“Este espaço vai servir para capacitar e, ao mesmo tempo, facilitar a troca de informações entre nossos artistas, sejam eles músicos, atores, escultores ou bailarinos. A arte tem que ser sempre valorizada”, acrescentou. Participaram ainda da inauguração, o diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do município, Heleno Gil, o vereador de Tanguá, Luciano Lúcio (PSDB), entre outras autoridades e artistas da cidade.

Durante a inauguração, foi feita homenagem ao vocalista e compositor Ubirajara Nascimento da Silva, falecido em fevereiro deste ano. Bira, como era conhecido, coordenava o projeto “Bira Rasta, Música Popular Resgatando o Artista Local”, de valorização da cultura local. A festa contou ainda com shows dos músicos Victor Nascimento, Davi Vianna e Dawson Nascimento da Silva (irmão de Bira), que tocaram clássicos da MPB e músicas compostas pelo homenageado, ex-integrante das bandas Alma Reggae e Onda R.


Para se inscrever nos cursos, basta comparecer ao local das 9h às 17h, de segunda à sexta-feira. A Casa do Artista fica na Rua Coronel Leal, 77, Centro, Itaboraí.

Fonte: Ascom da Prfeitura de Itaboraí

Faculdade Cenecista de Rio Bonito comemora quatro anos de fundação

Flávio Azevedo

O presidente do CRA, Wagner Siqueira, durante a palestra na Facerb.
Com o objetivo de celebrar o seu 4º ano de fundação, a Faculdade Cenecista de Rio Bonito (Facerb), realizou entre os dias 27 e 29 de maio, três eventos importantes para o setor educacional de Rio Bonito, sobretudo para o meio acadêmico. Organizado pelos alunos do curso de Administração, a segunda-feira contou com o 3º Fórum de Meio Ambiente da Faculdade Cenecista de Rio Bonito (Facerb), realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Quatro palestrantes (Fabiano Henrique Fortunato Ferreira, Joan Frederick Baudet Ferreira, Guilber Amaral e Charlles José Chafin Moreira) abordaram o “Meio Ambiente” pelo viés do empreendedorismo, da conservação e cidadão.

Na terça-feira (28/05), o evento teve prosseguimento com a 3ª Jornada Acadêmica da unidade, que contou com as palestras de Hylisson Mataruna, Herivelton Nunes Paiva, Wagner Trindade e Rafael Diniz. No dia seguinte, quarta-feira (29/05), o evento celebrou o quarto ano de existência da Facerb com a presença do presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro (CRA/RJ), Wagner Siqueira, palestrante da noite.


Concluída a palestra, o presidente do CRA recebeu uma placa comemorativa dos alunos da Facerb.
Além dos alunos e representantes da sociedade civil organizada, o evento foi prestigiado pela prefeita Solange Almeida (PMDB) e secretários de governo. Também compareceram, os vereadores Marcos da Fonseca, Marquinhos da Lunda Car (PMDB), Edilon de Souza Ferreira (PRB) e Aissar Elias (PTN). Representantes dos poderes, Executivo e Legislativo, de Tanguá também marcaram presença.

O preço do último cigarro

O meu primeiro cigarro custou-me uma horrível dor de cabeça. Todos os meus camaradas haviam tentado persuadir-me disso, mas como me tivesse na conta de um rapaz extraordinário, pensei que faria uma exceção à regra e não teria de sofrer tais consequências. A experiência que se seguiu logo me convenceu da justeza de suas predições. Como, porém, tinha ouvido minha mãe muitas vezes dizer que eram necessários grandes esforços e perseverança para fazer um homem, supus que isto implicava também um tal esforço, pelo que persisti na tentativa até que aos vinte anos já me havia tornado fumante inveterado, mas alquebrado em forças como meu avô, e ainda mais nervoso do que ele.

Casei-me aos vinte e três. Fisicamente eu era um marido aniquilado. A requisição de meu médico, que me disse que eu deixaria minha mulher na viuvez caso continuasse mais um ano na burocracia e com esse abominável vício, tomei mulher e filha e parti para o extremo ocidente, onde alguns de meus amigos já me haviam precedido algum tempo antes. Arrendei um sítio a cinco quilômetros da cidade – sítio com boas matas e abundante água, que me prometia excelentes negócios. Minha saúde estava outra vez restabelecida de modo a permitir-me trabalhar da manhã até a noite. Luíza era boa mulher e excelente companheira; e nossa filhinha, que ao tempo do meu último cigarro começava justamente a balbuciar, era o Sol e a alegria de nossa casa.

Depois de três anos de demora ali, eu possuía dezesseis hectares de milho e oito de trigo, além de grandes pastagens. Nossa casinha era muito pitoresca e bem arranjada. A primeira choça eu havia transformado em celeiro de trigo. Quando comunicara a Luíza o que me havia declarado médico, ela, sem resposta a minha pergunta, se estava pronta a deixar pai, mãe e amigas para ir comigo em busca de uma nova pátria no longínquo ocidente, dissera:
– Sim, Jorge, irei contigo para onde fores, e tudo farei que seja para teu bem, com a condição de que agora renuncies para sempre o fumo.

Esta condição que ela me propunha era sagrada, mas busquei esquivar-me a ela de modo mesquinho, respondendo-lhe:
– Não gastarei mais um vintém com cigarros.

Não passava isto de um ignóbil subterfúgio, uma subtileza a que costumam recorrer os escravos do fumo e da bebida para evitar que sejam obrigados a romper de uma vez com vício. Durante os três anos que ali estive, toda vez que ia à cidade e alguém me oferecia um cigarro, nunca o recusava, e quando Luíza me cobrava, eu lhe respondia:
– Eu só te prometi não gastar mais dinheiro em cigarros.

Num dia de outono, depois de um verão chuvoso, ao qual havia sucedido uma seca extraordinária, nós nos dirigimos à cidade. Nosso caminho conduzia através de uma extensa savana, que media cerca de duas léguas em circunferência, de uma monotonia absoluta, que não era quebrada nem por córregos, nem por árvores ou simples arbustos, e cuja erva, que nunca fora calcada pelos pés de algum animal, estava inflamável como uma mecha.

Pouco tempo antes eu havia tomado as precauções necessárias para proteger a nossa casa contra a possibilidade de um fogo de savana. Arara em torno dela um trato de terra, e, a volta deste um tanto retirado do mesmo, mais uma fita de alguns metros de largura, destruindo pelo fogo a erva que ficara de permeio.

Que grupo alegre formávamos, os três! Nossos cavalos, incitados pelo nosso vozerio iam em disparada na direção da cidade, por essa límpida manhã. É verdade que nossa carruagem não era das mais modernas. Sabíamos, porém, amortecer os solavancos, forrando os assentos com grossos cobertores. A criança ia no seu berço.

Feitas as nossas compras e havendo jantado com os nossos amigos em casa de negociante do qual éramos fregueses, pusemo-nos, às cinco horas da tarde, a caminho de casa. Nosso carro ia cheio de gêneros, entre os quais um pote de melaço, uma lata de querosene e um barrilzinho de água para dessedentar-nos na travessia da savana.

A certa distância da cidade, disse-me Luíza, com muita brandura:
– Fumaste outra vez, Jorge.
– Sim, respondi com mau humor, mas não me custou um vintém. Fato era que o uso do fumo, a que não estava mais habituado, me havia deixado nervoso e irritadiço, e momentos depois acrescentava: “terei de ser toda a vida torturado como um rapaz?”.

Luíza não respondeu palavra, mas a sua visível angústia ainda mais me irritava. Ocupava-se em acalentar a criança que estava cansada e mal-humorada, deitando-a depois no berço que se achava atrás de mim. Enquanto a embalava, um demônio qualquer me inspirou a ideia de ascender um cigarro que ainda trazia no bolso. Quando Luíza voltou a tomar o seu assento ao meu lado, teve de voltar a cabeça para não se ver obrigada a respirar a fumaça desse fatal cigarro.

Eu esperava impacientemente que me dissesse qualquer coisa, porque trazia já na ponta da língua uma resposta impertinente; ela, porém, calava-se. Depois de haver fumado mais ou menos metade do cigarro, lancei-o fora.
– É o último, por enquanto; deve saber que não me custou um vintém, murmurei.

Começou, porém, a subir-me um calafrio pelas costas, quando, momentos depois, vi que uma delgada coluna de fumaça se elevava do lugar onde eu havia atirado o coto de cigarro entre a erva seca, mas logo nos achávamos bastante distante daquele sítio, de sorte que não pensei mais nisso. Aninha dormia, sossegada no seu berço e Luíza velava ao seu lado. Depois de alguns momentos de silêncio ouvi-a dizer a meia vos:
– Trocou sua honra por um prazer, mas o pagará bem caro.

Minha consciência me arguia. Vi, em pensamento, diante de meus olhos uma feliz moça que por amor de mim deixara tudo quanto amava, e eu por um cigarro havia traído a confiança que ela em mim depositara. Mas não tinha coragem de confessar-lhe este pensamento e de suplicar-lhe o perdão.

Engolfado nos meus pensamentos, cheguei a esquecer-me até que Luíza se achava ao meu lado. Distávamos apenas meia hora de nossa casa, quando, de repente, começou a soprar um rijo vento norte que até nos fez tremer. Fiz parar os cavalos, coloquei o berço diante de nós e cobri a criança e Luíza com um xale. Quando me dispunha a continuar viagem, um ruído medonho soou-me aos ouvidos; não era uma tempestade que se desencadeava, mas um ruído crepitante e ameaçador que se fazia ouvir longe, atrás de nós.
– É um furacão!, exclamou Luíza.

Ah, se fosse somente isto! Mas eu conhecia perfeitamente esse estrépito. Era o rumor de um fogo de savana. Logo pudemos distinguir também as labaredas, que avançavam para nós com uma velocidade espantosa, deixando após si os mais indeléveis vestígios.
– Jorge, é um fogo de savana! Corre depressa e deita-lhe fogo de encontro, se não estamos perdidos!

Luíza tomou depressa as rédeas, e os animais, assustados, aos quais o instinto dizia que a morte vinha no seu encalço, galopavam com fúria, enquanto eu remexia em vão as minhas algibeiras. Havia gastado o último fósforo para ascender o fatal cigarro, que tinha causado este horrível incêndio!
– Não tenho fósforos...! Luíza... Que Deus me perdoe... Poderás tu perdoar-me?

Oh! Como poderei eu descrever a angústia daquele momento! Nunca poderei esquecer os tormentos infernais que sofri e que remorsos da consciência podem infligir a uma alma.
– Não cogito disto agora, meu amado... Não foi uma falta tua, não tiveste essa intenção, estamos agora próximos à morte. Que Deus nos perdoe a ambos. Ah, mas minha pequenina Aninha, deverá ela também sucumbir?

Um estremecimento de horror perpassou todo o meu corpo, enquanto um suor mortal me borbulhava das faces. Observava o fogo que se aproximava, mas era incapaz de uma reflexão. Subitamente exclamou Luíza:
– Resta ainda uma esperança de escapar, Jorge. Derramemos depressa a água e o melaço sobre os cobertores e refugiemo-nos naquela eminência onde a erva não está tão alta. Ali podemos deitar-nos dentro do carro e envolver-nos nos cobertores molhados.

Dali a instantes achávamo-nos no lugar indicado. Desatrelamos os cavalos, assustados, que nos lançaram um olhar piedoso, desaparecendo em seguida, enquanto deitávamos os líquidos nos cobertores, parte dos quais estendemos no carro, cobrindo-nos com o resto.

O estrépido das chamas era ensurdecedor. A fumaça começava a envolver-nos. O ar estava impregnado de cinzas, e as chamas se elevavam a grande altura acima de nós. Já nos havíamos deitado no carro, envoltos nos cobertores, quando Luíza repentinamente se ergueu e, pegando da lata de petróleo, que havíamos esquecido ao pé de nós, a arremessou ao longe, com pulso vigoroso. Mas, antes que ela pudesse voltar de todo para baixo da coberta protetora, o mar de chamas e a fumaça a tinham atingido.

Pareceu-me ter passado um século neste inferno, que eu mesmo nos havia preparado. Para a minha alma culpada era como se fora o dia do juízo final. Afinal o calor cedeu e a fumaça ia diminuindo. Quando meti a cabeça para fora, via as chamas devoradoras que já iam longe, em nossa frente. O sol se parecia como uma esfera inflamada envolta em fumo.
– Oh Luíza!, exclamei, vendo minha mulher erguer-se vagarosamente ao meu lado.
– Sim, Jorge, estou viva, respondeu ela: sua voz, porém, estava rouca. Imediatamente se inclinou sobre o berço, eu tirei os cobertores de sobre Aninha; ela não se mexia. Pensei que estivesse dormindo.
– Aninha! Aninha! bradamos, erguendo a criança, mas nenhum sinal de vida!

Friccionando o corpinho, contávamos chamá-la outra vez de si, mas em vão – estava morta. Torturado e contrito fui-me arrastando a frente, levando o cadáver da minha filha, perseguido de uma voz acusadora que incessantemente me dizia: “Tu és o culpado!”, enquanto minha mulher, com rosto lívido, caminhava ao meu lado, me consolava:
– Jorge, eu te amo como nunca antes, estou feliz por que me foste conservado; não te aflijas, não foi a tua intenção pôr fogo a erva.

Da cidade o fogo fora visto por algumas pessoas que acudiram em nosso auxílio. Estas nos cederam os seus cavalos. O Sol desaparecia no horizonte quando começamos a descer a colina que ficava a cavaleiro do pequeno vale em que estava situada a nossa casa. Porém, nada mais se via. A casa estava reduzida a um montão de escombros! O nosso gado e os cavalos, que estavam completamente exaustos, eram os únicos sinais que ainda indicavam o sítio do nosso primitivo Éden.

Luíza por muito tempo esteve entre a vida e a morte; sua saúde estava minada; seus pulmões haviam respirado excessiva quantidade de ar quente, e a comoção do susto fizera uma impressão muito profunda sobre o seu peito. Creio que ela nunca mais se teria recobrado se não fora por amor de mim, que finalmente eu me teria acusado de ter sido também o seu assassino.

Nenhuma voz infantil tornou a alegrar desde então o nosso solitário lar, que fomos estabelecer num sítio distante daquele que nos evocava a dolorosa lembrança do que me havia custado o meu último cigarro.

Fonte: livro Pérolas Esparsas

O Guarda-Linha e seu filho

Jó Teemann desempenhava o cargo de guarda-linha na Estrada de Ferro de East-Tennessee e tinha por obrigação especial vigiar a grande ponte do Hiawassee, que começava distante uns cem passos de sua casinha. A casinha mesma estava situada num desfiladeiro por onde passava a dita estrada, constituída por uma linha dupla que corria por entre a sua casinha e a colina fronteira. Havia uma semana que chovia e em consequência da excessiva umidade a terra se havia tornado movediça.
– Ocorreu ontem novo desabamento de terra um pouco abaixo de Sweetwater, disse Jó a seu filho Rúben, rapaz de treze anos, que, sentado junto ao fogão, se achava ocupado em talhar uma raqueta.

Jó era viúvo, e o pequeno Rúben tinha de atender aos cuidados da casa. Fazia-o, porém, de modo tão pouco satisfatório, que seu pai muitas vezes sentia a necessidade de uma dona de casa.
– Essas colinas vermelhas de Tennessee, quando dão de desabar, não param mais, disse Ruben alçando a raqueta com esta interrogação: Não acha que está boa, papai?
– Penso que sim, respondeu laconicamente o pai, enquanto se dirigia para a porta a fim de espreitar ainda uma vez o tempo.

A perspectiva dessa noite não era muito animadora. O firmamento estava envolto numa escuridão espessa através da qual descia uma chuva fina. Do lado da ponte vinha um rumor surdo como se o vento e as águas do rio se houvessem travado de luta. O rio já tinha transposto as margens, alagando toda a baixada na extensão de mais de um quilometro.

Pensativo, Jó fechou a porta e sentou-se junto ao fogão. Dali a nada se ouviu um ruído estranho e rangente que parecia vir da colina fronteira.
– Que seria aquilo? Vai ver que... Ia dizendo Jó, mas não chegou a concluir a frase.

O ruído surdo terminou por um estampido violento. Uma coisa qualquer bateu de frente contra a casa e esmagou-a como uma casca de ovo. A luz apagou-se. Ao fazer Jó um esforço para erguer-se, foi arremessado para baixo da mesa, onde ficou imprensado no meio dos fragmentos que ruíam. Depois de haverem cessado os abalos e o estrépito, ele sentiu além de outras contusões uma dor lancinante na perna direita. A escuridão era completa e a chuva lhe batia em cheio na face.
– Onde está, papai? Perguntou a voz medrosa e aflita do pequeno Ruben. O senhor se machucou?
– Penso que tenho a perna fraturada, suspirou Jó. Talvez só esteja deslocada. Já o mês passado adverti ao superintendente do tráfego que esta colina mais cedo ou mais tarde havia de desabar.
– É o senhor que está aqui, papai? Disse o rapaz, que se achava agora rente com ele. Pressenti que o senhor estava machucado, porque ouvi seus gemidos.
– Sim, sou eu, meu filho; se te fosse possível remover um pouco esse entulho, talvez eu pudesse safar-me daqui. A linha deve estar obstruída numa grande extensão. Foi um desabamento de terra, e um desabamento importante.
– Pois bem, disse o rapaz, empenhando todas as suas forças para remover o entulho. Tratarei primeiro de libertar o senhor e depois veremos.
– Muito bem, meu filho, já é bastante; penso que agora com algum esforço poderei safar-me, mas não deve tardar o expresso, que parte de Laudon às onze e quinze minutos. Consultei o relógio pouco antes do desabamento e eram dez e meia.
– Não podemos fazer sinal? Perguntou Ruben.
– Temo que não. Estou convencido de que as lanternas estão quebradas e demais como seria possível achá-las debaixo desse entulho? Sabes onde estão os fósforos? Não tenho nenhum comigo.

Nem fósforos nem lanternas puderam ser encontrados. Tudo estava provavelmente enterrado. O que era de admirar é que Jó Teemann e seu filho não estivessem enterrados também.
– Ah, meu Deus! Lamentou Jó. Por que tínhamos de ser reduzidos a uma tão deplorável situação?

Com a ajuda de seu filho, Jó havia conseguido sair de sob a mesa, mas não podia andar.
– Estou completamente moído, disse ele. Não há outro remédio se não ires tu mesmo até lá, Ruben.
– Até lá... onde, papai? Até Laudon. Alguém tem de ir até lá para comunicar o ocorrido. Não acabo de te dizer que o expresso está na hora? Não podemos consentir que ele se arremesse nesse montão de terra enquanto um de nós ainda puder se arrastar-se.
– Mas a grande ponte de dormentes! Quem poderá transpô-la sem lanterna, papai?
– Tens de apalpar o caminho, Ruben, disse o pai, que tinha resolvido mandar o menino a Laudon, se bem que com grande risco de vida. Ó Deus, perdoa-me que eu mande o menino! Dizia o angustiado pai. É cruel, Ruben, mas não há ninguém que possa fazer parar o trem, somos os únicos aquém da ponte na redondeza de mais de um quilometro.

Ruben hesitou um instante. Era justo que deixasse ao pai ferido sozinho, mesmo tratando-se de salvar outros? Jó, porém, acabou de vez com estas hesitações.
– Não tens tempo nenhum a perder, se queres estar em Laudon antes do trem. Se te não puseres imediatamente a caminho, obrigar-me-ás a castigar-te quando estiver restabelecido. Trata-se de salvar vidas.
– Já vou, papai.

Ruben pegou na mão do pai e apertou-a, depois se retirou, sufocando um soluço que cortou o coração de Jó.
– Meu Deus, perdoa-me se faço mal, suspirou Jó, mas nas condições em que me acho me seria impossível chegar lá em tempo.

Quando Ruben trepou por cima do monte de terra que obstruía a linha, convenceu-se de que o pai tinha razão. Era necessário chegar a Laudon, custasse o que custasse. Se o trem se arremessasse nesse montão de terra, isto custaria a vida a muita gente.

A escuridão era tão densa, que Ruben só se podia conservar na linha adiantando-se às apalpadelas. Tateando os trilhos, Ruben foi avançando aos poucos ate que uma lufada de ar, vinda de baixo, lhe deu a perceber que se encontrava sobre a ponte. Era necessário transpô-la de gatinhas, e, ainda assim, à pressa, porque dali a minutos devia chegar o trem.

Chegaria ele a Laudon antes do expresso? Esse cuidado o afligia ainda mais do que o medo que lhe infundia a sua difícil empreitada. Troncos de madeira arrastados pela correnteza das águas chocavam de vez em quando nos pilares da ponte, fazendo-a estremecer toda. Como o rio tivesse transbordado, vinham troncos de árvores e outros objetos de todas as direções, procurando sua passagem justamente ali onde a ponte lhes opunha obstáculos.

“Que seria se alguma balsa desfeita viesse dar de encontro aos pilares, destruindo a ponte!” Ruben mal tinha tempo para cogitar na possibilidade de desse perigo, tanto o seu sentido estava posto em adiantar-se o mais depressa possível para alcançar o trem.

Finalmente ele havia transposto a ponte principal, restando-lhe ainda atravessar um trecho de construção de madeira do outro lado da mesma, e por baixo da qual as águas igualmente bramiam, despenhando-se na escura profundidade. As forças de Ruben começavam a diminuir.

Se lhe não fosse possível transpor aquela extensa construção de madeira, não só estaria impossibilitado de dar um sinal de alarma, como havia de ser ele próprio esmagado pelo trem. De repente sentiu um choque desusadamente violento, como se um objeto de grande peso houvesse dado de encontro aos dormentes. Toda a construção rangeu atrás dele, mas mal lhe sobejava tempo de pensar na possível causa desse choque, quanto menos para tratar de verificá-la. Este incidente, porém, incitou-o a empenhar as suas últimas forças. Cumpria chegar em tempo à estação, do contrário estava tudo perdido.

Entretanto o pai de Ruben estivera durante algum tempo deitado, pensando no ocorrido. Depois se ergueu a custo e espreitou através da escuridão, na direção das águas que rugiam, até que os olhos lhe começaram a arder. Tanto lhe teria aproveitado espreitar através de uma muralha de pedra. A escuridão profunda o fez estremecer quando pensou nos obstáculos terríveis que se haviam de opor a Ruben no seu difícil caminho. Pensou na sua juventude, nos horrores daquela noite lúgubre, e no que podia acontecer a seu filho e frustrar sua tentativa.

Esta suspensão de espírito em que Jó se achava tornou-se lhe finalmente insuportável. De novo começou a acusar-se por ter obrigado o menino a meter-se em tamanho risco. Por fim o desejo de ver em segurança o filho talvez chegasse a exceder o seu cuidado pela salvação dos outros. Depois havia ameaçado até a Ruben com castigos, se não se desse pressa em pôr-se a caminho.

Dominado por estes sentimentos de angústia, Jó tentou arrastar-se até a linha, onde começou a divagar, sem destino, tateando por entre os trilhos, o que apesar da dor que sentia na perna, contribuía de algum modo para acalmar a tempestade que se lhe havia desencadeado no espírito. Segundo calculava, havia já bastante tempo que Ruben partira. Teria ele chegado lá em segurança? Ia Jó se arrastando para a frente com este pensamento aflitivo, quando viu de repente uma grande luz surgindo numa curva que ficava aquém de Laudon e avançava para o sítio onde ele estava.
“Meu Deus, é o expresso!”, exclamou ele com grande angústia, esquecendo-se com o susto, de todas as suas dores. “É o trem”. Onde estaria o menino? Ruben talvez não tivesse chegado em tempo à estação. Que seria feito dele? E qual seria a sorte do trem que ora se aproximava? Com este pensamento cruel o pobre Jó foi-se arrastando para a frente, batendo um dormente após outro até que, de repente, sua mão tateou ... no vácuo. A muito custo conseguiu guardar o equilíbrio. Com grande precaução repetiu a experiência, e um calafrio lhe percorreu a espinha. Evidentemente parte da ponte havia sido arrastada pela torrente. “Foram balsas que causaram isto”, disse Jó, tiritando de frio. “E aí vem o trem. Qual seria a sorte do menino?”

Como um desesperado, o pai, deitado sobre os dormentes úmidos e torturado pela dor, erguia as mãos convulsivas: “Meu filho! Meu filho Ruben!”. Foi tudo o que conseguiu dizer, enquanto o coração se lhe ameaçava partir. O trem, com os seus grandes olhos de fogo, se aproximava; e aí estava ele sobre os trilhos sem poder fazer coisa alguma. Toda tentativa para lançar um grito de alarme foi baldada. Ao passo que o ruído da locomotiva e o rumor das águas na profundeza lhe penetravam na alma, pareceu-lhe ver diante dos olhos como que centenas de luzes dançando em torno dele e zombando da sua angústia e, de repente, uma vertigem fez cair tudo num silêncio profundo.

– Papai! Papai! Não há quem possa fazê-lo tornar à vida? Como teria ele caído aqui em baixo?
– Sossegue, meu rapaz! Ele logo tornará a si. Sinto distantemente o pulsar do seu coração.
Quando Jó Teemann abriu os olhos, foi esta a sua primeira pergunta: “onde está meu filho? Onde está Ruben?”.
Ruben, porém, já havia caído nos braços do pai e não encontrava palavras para exprimir a sua alegria por ter tornado a achá-lo. Agora o guarda-linha indagou acerca do trem.
– Cheguei justamente a tempo à estação de Laudon, papai – disse-lhe Ruben.

Falando-lhes então do desabamento de terra e do seu estado, estes homens tomaram-me a si na locomotiva e vieram devagar até aqui a fim de conhecer a situação. Eu lhes disse que uma parte da ponte devia ter ruído atrás de mim, porque essa foi a sensação que tive do estremecimento causado pelo choque. Assim, tomamos o bote da diretoria da estação e chegamos justamente aqui, onde o encontramos estendido sobre os dormentes. Não correu tudo às maravilhas, papai?

Os empregados da Estrada de Ferro tomaram, pois, a Jó o seu pequeno salvador, na locomotiva, e cinco minutos depois estavam eles na estação de Laudon, rodeados de uma grande multidão de passageiros curiosos e agradecidos. Que não faltaram nessa ocasião, as atenções por parte dos viajantes reconhecidos e durante esse inadvertido tempo de espera; e que o pequeno Ruben foi festejado como o herói do dia, será desnecessário acrescentar.

Fonte: livro Pérolas Esparsas

A oração de uma mãe

A parábola do "Filho Pródigo", história semelhante a essa que postamos, é uma das mais emocionantes e cheias de ensinamentos da Bíblia.
– Alberto, meu filho, aonde vais? Era a voz de uma mãe virtuosa e cristãmente educada que se dirigia ao filho por quem incessantemente orava.
– Que lhe importa isso? Respondeu Alberto, dirigindo-se para a porta.

Desfechando em um pranto de soluços, a mãe lançou-se lhe ao pescoço e disse:
– Não me importa isso, Alberto?
– Não, eu já lhe disse, estou farto de suas orações e dessa importunação contínua: "aonde vais, Alberto?" Vou pelo mundo fora, onde não terei mais de ouvi-las. As suas orações, a senhora pode fazer em favor de outros, quero que me esqueça. Dizendo isto Alberto abriu a porta e dispôs-se a sair.
– Alberto, meu filho, disse-lhe ainda uma vez a mãe, as minhas orações hão de acompanhar-te. Quando estiveres cansado e farto deste mundo, volve e toma pelo caminho de tua mãe. 

Alberto era filho de um lavrador e tinha a idade de vinte anos. Naturalmente exaltado, dera-se ultimamente à bebida, que o levou a tomar aborrecimento à vida solitária dos campos. O pai, conquanto se inquietasse com o procedimento do filho, nunca insistiu com ele a esse respeito. A mãe, porém, carinhosa e terna, buscava por todos os meios chamá-lo ao caminho do bem. Quando Alberto desapareceu, ela se recolheu ao quarto para desafogar diante de Deus o coração opresso.

Decorreram três anos; três anos de uma vida agitada, no meio dos prazeres e seduções de uma grande cidade, e no coração daquele filho só restava ainda um único desejo: o de pôr fim a existência. Envilecido ao ponto de não guardar mais vestígio de sua anterior varonilidade, esmolava de quando em quando para mitigar a fome. Rara vez se lembrava de sua carinhosa mãe. E se nos primeiros meses de sua errática existência, a lembrança da mãe e de suas orações conseguia alguma vez inquietar a sua alma, a voz de sua consciência há muito havia cedido ao peso sufocante das paixões e só muito fracamente ainda se fazia ouvir.

Por uma noite fria de inverno vemo-lo dirigir-se apressadamente na direção de um rio no intuito de atirar-se e pôr assim fim às suas misérias. Ao passar em frente de uma casa de culto, porém, sente-se involuntariamente detido e é impelido a entrar. Um senhor de fisionomia amável e ainda jovem sobe ao estrado. Maviosos acordes enchem o ambiente e uma voz varonil entoa com comovedor acento:
“A voz de sua mãe acaso um filho
Esquecer poderá?
Siga ele embora da maldade o trilho,
Dessa voz, qual de um canto o estribilho,
A prece o seguirá”.

O amor de seu divino Mestre e dos pecadores por quem Ele sofreu, parecia arrebatar de entusiasmo ao jovem cantor que, com enternecimento capaz de fazer vibrar os mais empedernidos corações, entoou a segunda estrofe:
“O olhar de sua mãe acaso um filho
Poderá esquecer?
Esse olhar de que o pranto empana o brilho
Percorre sem cessar o longo trilho
Na ânsia de o rever”.

Nenhuma pena seria capaz de descrever os sentimentos que tumultuavam o coração de Alberto. Pela primeira vez, depois de tantos meses de inditosa existência, sua alma volve um olhar ao passado e ele começa a sentir um desejo invencível de rever sua mãe. Recordando, porém, a maneira brusca como a deixara e atentando na sua triste condição, diz, consigo mesmo: "Não, lá não tornarei mais, minha mãe não pode reconhecer como filho uma tão vil criatura como eu sou. Irei, pois, executar o que projetei." Neste ponto, o cantor, erguendo a voz, continuou:
“Oh, volve, meu filho!
Oh, volve outra vez!
Ao caminho do bem!”.

Alberto deixou apressadamente o recinto. Um missionário, porém, que o havia observado atentamente, seguiu-o. Alberto estava dominado de profundo arrependimento e em saindo da sala rompeu num pranto de soluços, dizendo: “Oh! minha mãe! Perdoe-me que ainda lance sobre a senhora mais este opróbrio, buscando pôr termo à existência, mas já não a posso suportar!”

“Oh, volve, meu filho! Oh, volve outra vez!”. Era a voz do missionário que repetia baixinho essas palavras no ouvido de Alberto. Alberto deteve-se e o missionário, travando-lhe do braço, o reconduziu à sala, onde alguns missionários entraram a falar com ele sobre a salvação. Momentos depois Alberto caía, contrito, de joelhos, suplicando a Deus o perdão dos pecados. Depois referiu aos seus amigos o seguinte: "Quando deixei a casa de meus pais, minha mãe me disse: 'Alberto, meu filho, as minhas orações hão de seguir-te; quando estiveres cansado e farto deste mundo, volve e toma pelo caminho de tua mãe.' Volverei a ela e protestar-lhe-ei que estou resolvido a começar uma nova vida”.

No dia seguinte Alberto voltava ao sítio de seu nascimento, onde em poucas horas chegou. Caía a noite e ninguém o notou quando se dirigiu à casa dos pais. Quando parou diante da porta ouviu, lá dentro, a voz de sua mãe que, como de costume, suplicava a Deus pelo filho. Alberto entrou e com voz embargada de profunda comoção exclamou baixinho: "Mãe!"

Soube então que o pai falecera havia alguns meses e a mãe, solitária e triste, continuava a aguardar a volta do filho, por quem nunca havia deixado de orar. Alberto obteve logo boa colocação e agradece diariamente a Deus a salvação de sua vida, em grande parte devido à influência de sua boa e piedosa mãe e às exortações simpáticas daqueles nobres missionários.

Oh, mães! Que vos sentis desfalecer, prossegui sempre, orando incessantemente, que Deus vos há de ouvir! Missionários, não vos deixeis dominar pela fadiga... Continuai a trabalhar e a cantar! “Semeia de manhã a tua semente, e de tarde não cesse a tua mão de fazer o mesmo...".

Fonte: livro Pérolas Esparsas