domingo, 13 de setembro de 2026

Astrojildo Pereira – "O Revolucionário Cordial" era comunista e riobonitense

Você sabia que um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PSB) é riobonitense? Em tempos de polarização entre os espectros políticos de esquerda e direita, vale a pena visitar essa curiosidade do cenário político brasileiro e internacional. Mundialmente conhecido como “O Revolucionário Cordial”, Astrojildo Pereira Duarte Silva nasceu em 08 de outubro de 1890.

Astrojildo era filho de Ramiro Pereira, um médico, fazendeiro e comerciante de Rio Bonito. O temido “Coronel Ramiro Pereira”; além de ser figura tradicional da política local era o delegado de Rio Bonito. Curiosidade: em 1919, a sessão que escolheria a presidência da Câmara de Rio Bonito terminou em tiroteio. Por conta desse triste episódio morreu o vereador, Joaquim de Castro; morador da localidade de Rio Seco. Joaquim de Castro dá nome a rua que os riobonitenses chamam de “Subida do Boqueirão”, no Centro da cidade. O pivô dos tiroteios foi Ramiro Pereira, que não aceitava perder a Presidência. O atirador foi o principal capanga do Coronel Ramiro.

Voltando a Astrojildo, ele estudou no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo. Era um educandário de orientação jesuíta e de onde Astrojildo foi expulso. A atividade de gráfico foi a primeira ocupação de Astrojildo. Amizades com universitários cariocas, a partir de 1910, aproximou Astrojildo dos anarquistas. Em 1913 ele participou ativamente da organização do II Congresso Operário Brasileiro e da reestruturação da Confederação Operária Brasileira (COB).

Embora transitasse o tempo todo na Capital do Brasil, naquela época, o Rio de Janeiro, Astrojildo mantinha seu convívio com riobonitenses. Essa amizade fez muitos jovens da época se identificar com o Comunismo. O reflexo disso aconteceu na década de 1930. Uma volante (patrulha) do Exército, por determinação do então presidente, Getúlio Vargas; veio a Rio Bonito e prendeu cerca de 70 riobonitenses. A acusação era de serem “comunistas”.

Os presos eram filhos de famílias abastadas e influentes, situação que ajudou remediar a situação junto ao presidente Getúlio Vargas. Para provar que o “riobonitismo” não é coisa nova, esse acontecimento foi empurrado, sobretudo pelas famílias envolvidas, para baixo do tapete da história. As tradicionais famílias não queriam o nome dos seus filhos associados a esse fato, mas Rio Bonito ficou identificado como “Cidade Comunista”.

Essa identidade “Comunista”, por conta de Astrojildo Pereira, foi responsável por outra situação curiosa da polarização política Fluminense da época. A história envolve o interventor do Rio de Janeiro, Ernâni do Amaral Peixoto; numa das suas passagens por Rio Bonito, início dos anos 1940. Amaral Peixoto viajava de trem rumo a Campos dos Goytacazes, mas o trem fazia uma parada na estação de Rio Bonito. Quando o trem parou o assessor do interventor veio informar que o povo de Rio Bonito queria vê-lo. Ao que Amaral Peixoto, num gesto antipático, mas compreensível por conta da “fama da cidade” (comunista), além de não descer em Rio Bonito, fechou as janelas do vagão dizendo não querer graça com aquela gente.

Dos anos 1950 em diante, a sociedade riobonitense foi excluindo Astrojildo Pereira da sua história. A ação foi tão eficiente que hoje ele é desconhecido do riobonitense, inclusive, daqueles que transitam no meio político e dizem se identificar com o espectro de esquerda.

Voltando a trajetória de Astrojildo, vale ressaltar que foi trabalhando com gráfica que ele deu início à carreira de jornalista, atividade que exerceu sua existência durante toda sua vida. Em 1918 ele participou de uma frustrada tentativa de levante anarquista e acabou preso. Afastou-se das lideranças anárquicas e identificou-se com os ideais fundadores da União Soviética, do internacionalismo proletário e editou a revista Movimento Communista.

Após a fundação do PCB, ele fez sua primeira viagem à União Soviética (1924), sendo encarregado, em 1927, de estabelecer o primeiro contato do PCB com o líder do movimento tenentista, Luiz Carlos Prestes; que estava exilado na Bolívia e seria um grande parceiro da vida.

No II Congresso do PCB, em maio de 1925, no Rio de Janeiro, foi aprovada a criação de um jornal com o propósito de divulgar as principais propostas e bandeiras dos comunistas junto à classe trabalhadora. Fundado por Astrojildo Pereira e Otávio Brandão Rego, com o auxílio de José Lago Molares e Laura Brandão, surgiu “A Classe Operária”, apresentado como “jornal de trabalhadores, feito por trabalhadores, para trabalhadores” para driblar a censura.
Ao longo de 40 anos Astrojildo assinou inúmeros jornais e revistas identificados com o Socialismo e o Comunismo, sendo o principal deles, “Literatura” (1946-1948), “Problemas da Paz e do Socialismo” (1958), “Estudos Sociais” (1958-1964), “Imprensa Popular” (1948-1958) e Novos Rumos (1958-1964). Nesse período ele escreveu regularmente para jornais comunistas do Brasil e do mundo, os mais conhecidos foram “A Classe Operária” e “Voz Operária”. Nos tempos de Astrojildo, os partidos políticos tinham jornais e revistas para divulgar seus programas e ideologia. Bem diferente dos dias atuais. Atualmente as negociatas e benefícios pessoais predominam as siglas partidárias e instituições da República.

Astrojildo voltou a ser preso pelos agentes do governo militar em outubro de 1964. Na prisão, seus problemas cardíacos agravaram. Foi posto em liberdade, por força de um habeas-corpus em janeiro de 1965. Ao sair da prisão ele declarou à imprensa ser um “marxista convicto” e conclamou as pessoas a lutarem pela democracia. Morreu no Rio de Janeiro em 20 de novembro de 1965, sendo sepultado em Niterói. Vamos em frente! #flavioazevedo

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