terça-feira, 3 de novembro de 2026

A 'finada' floresta do sertão de Braçanã, em Rio Bonito/RJ

Minha “Caminhada de Finados”, nessa segunda-feira (02/11), me levou ao Cemitério da Serra do Sambê, localizado no sertão de Braçanã. O local abriga a “finada floresta” e os sepulcros estão por toda parte, os fornos, onde são queimados os troncos que se tornam carvão. O cemitério de gente de Braçanã está desativado, mas o cemitério de floresta e vida está em plena atividade e expansão.

A água que era produzida nessas montanhas, hoje, um grande cemitério, é vital para o abastecimento hídrico de Rio Bonito e Tanguá. Aliás, o verão está chegando e com ele também chegará a tradicional falta d’água que todo ano incomoda o tanguaense. Quando a barragem do Salto D’Água de Braçanã, onde acontece a captação que abastece Tanguá, não tem água suficiente para atender a população, saiba que o assassinato da floresta dos sertões de Braçanã é a principal razão da falta d’água.

O desmatamento no sertão de Braçanã é resultado de pelo menos 50 anos de destruição. Os anos vão passando e o cemitério segue sendo ampliado, porque o desmatamento só aumenta. No local é possível encontrar um gado emagrecido, com costelas a mostra, porque além do exercício que fazem subindo e descendo montanha em busca de alimento – alguns trechos com inclinação de 70, 75 graus –, não existe quantidade suficiente de capim para alimentar.
Destruição em massa de indivíduos arbóreos no sertão de Braçanã. Essa ação é recente.
Também é possível encontrar falecidas cachoeiras – as pedras estão lá. Algumas vertentes são resilientes e um veio de água passa por entre as rochas que outrora eram cobertas pelas águas. As cachoeiras da parte mais baixa de Braçanã, que antigamente cobriam os banhistas – eu me lembro desse tempo – perderam 70% da capacidade hídrica. As águas estão desaparecendo. Não é culpa das fazendas da parte baixa de Braçanã, mas do desmatamento nos cumes das montanhas que sem a floresta, perde a condição de reter a água da chuva para irrigar as nascentes que alimentam as vertentes.

A sanha destruidora do ser humano segue acontecendo sob a inercia dos governos. Inércia essa que também domina a sociedade, que se indigna com a árvore cortada no quintal do vizinho ou na calçada da rua, geralmente por questões de segurança, e ignora os hectares de floresta que estão sendo suprimidos sem nenhuma necessidade em nossos sertões.

Alguém tem notícias das políticas ambientais anunciadas em prosas e versos nos últimos 20 anos? Nesse tempo o país foi governado por um grupo político que se apresenta como “preocupado com Meio Ambiente”. Sobrevoos de helicóptero com reportagens na grande mídia noticiando uma suposta fiscalização e prisão de trabalhadores são apenas propaganda e criação de conteúdo para atrair recursos internacionais para investimento na proteção do Meio Ambiente. Em nossa Região, porém, não existe nenhuma política pública eficiente e real de proteção ambiental.
Quer me impressionar com discursinho lacrador de proteção ambiental e defesa do verde? Sobe a Serra do Sambê, vá até o sertao de Braçanã e veja o que está acontecendo.
Falando em recursos internacionais, onde estão as ONGs protetoras do verde que recebem vultosas verbas, inclusive de países europeus? Por aqui nada acontece. Apenas lacração. Nenhum reflorestamento onde precisa. Nenhuma formação social e profissional para as pessoas que desmatam. Esse trabalhador que corta a floresta é gente que precisa pagar as contas, sobreviver. Alguém as remunera para tirar a floresta, para fazer os fornos e produzir o carvão. Eu nunca vi notícias de prisão desses mandantes. Nunca. Só vejo o pobre sertanejo que não foi para escola sendo reprimido.

Encerro por aqui essas reflexões na esperança de que as autoridades e a sociedade tomem providencias, mas também com a certeza de que não farão nada. Apenas encherão o meu saco pedindo que faça reportagens sobre falta d’água quando ela começar a faltar na torneira. Vamos em frente! #flavioazevedo

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